No anzol dos outros
No anzol dos outros
Longe Navios-fábrica pesqueiros levam os frutos do mar brasileiros para mercados, como o de Tóquio, no Japão
Pesquisadores descobrem espécies cobiçadas em águas brasileiras. Elas eram capturadas por barcos pesqueiros estrangeiros sem que ninguém soubesse..
O calamar, um molusco de águas geladas vendido como iguaria rara em importadoras, pode, na verdade, ter sido capturado em mar brasileiro.
O mesmo acontece com outras espécies marinhas altamente valorizadas que vão direto para os mercados europeu, asiático e americano. Embora praticamente desconhecidas aqui, são peixes e crustáceos capturados dentro do mar territorial brasileiro por navios pesqueiros estrangeiros. Ninguém sabia que essas espécies freqüentavam nosso litoral. Sua ocorrência só foi descoberta nos últimos anos, graças à presença de pesquisadores a bordo.
É o caso do caranguejo de profundidade, que chega a pesar 1,6 quilo e medir 18 centímetros. Ele é encontrado 500 metros abaixo da superfície, a cerca de 180 quilômetros da costa ao longo do trecho de litoral que vai de Florianópolis à fronteira com o Uruguai. No mercado de Tóquio, pode chegar a R$ 60 o quilo. Outra vedete internacional pescada em mar brasileiro é o peixe-sapo, conhecido como tamboril, apreciado principalmente em Portugal. É preparado com amêndoas e ameixas-pretas. Um filé de peixe-sapo grelhado, com saladas e batatas, custa cerca de 35 euros. Em 2002, também foi registrada a descoberta no Brasil de camarões de grande profundidade, conhecidos como carabineiros, que fazem sucesso nas paellas espanholas.
A captura dessas espécies vem puxando a exportação de pescados do Brasil, que aumentou 2,07% em 2004. O desempenho só não é melhor porque essas espécies nacionais são capturadas apenas por embarcações estrangeiras, que têm autorização para explorar a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira, faixa entre 12 e 200 milhas marítimas (cerca de 22 a 370 quilômetros) além da costa brasileira. Basicamente artesanal, a pesca no Brasil sempre foi uma atividade marcada pela informalidade. O país não possui barcos apropriados para pesca em águas profundas, onde são encontradas as espécies valiosas. A exploração do caranguejo de profundidade, por exemplo, requer uma série de cuidados. Os animais capturados são limpos e embalados na linha de montagem dos navios-fábrica. Um barco desses pode processar mais de 100 toneladas de pescado.
Só nos últimos cinco anos o Brasil passou a controlar melhor essa exploração estrangeira. Hoje, cerca de 60 barcos estrangeiros arrendados estão em atividade na costa brasileira. Desde 2000, as embarcações devem contar com dois terços dos tripulantes brasileiros, além de um observador de bordo. "Essas medidas estão servindo para capacitar a mão-de-obra nacional", destaca o ministro da Pesca, José Fritsch. "O setor pesqueiro sempre foi abandonado e a questão do arrendamento era um horror. Hoje
acompanhamos este trabalho em nossas águas e temos a consciência do que está sendo capturado aqui", diz. O aquecimento do setor fez com que empresas brasileiras começassem a investir na construção de embarcações nacionais, que vão substituir as estrangeiras, como acontece em Itajaí, no litoral de Santa Catarina, onde empresários se uniram para a construção de barcos de pesca.
O tamboril é uma das iguarias mais apreciadas na Europa. As pesquisas e o acompanhamento das novas espécies capturadas só foram possíveis após a exigência da presença de um observador de bordo brasileiro nas embarcações estrangeiras. Essa obrigatoriedade surgiu em julho de 2000, quando foi firmado convênio entre universidades e governo federal. São pesquisadores das universidades Federal Rural de Pernambuco e do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. "Passamos a realizar estudos e conhecer as espécies com alto valor comercial que temos por aqui e só estrangeiros
exploravam", diz o oceanógrafo Roberto Walrich, coordenador do programa em Santa Catarina. Os estudos desmontam a idéia de que o mar brasileiro, de águas tropicais, é pobre em espécies internacionalmente valorizadas.
Com os dados recolhidos nos últimos anos, os pesquisadores estão estabelecendo como deve ser feita a captura dessas espécies descobertas em águas brasileiras para que a pesca excessiva não provoque um colapso dos valiosos cardumes. São orientações como as de 2002, que limitaram o desembarque de peixe-sapo em 2.500 toneladas e permitiram a pesca somente dos indivíduos com mais de 50 centímetros. Podem evitar o que ocorreu com o próprio peixe-sapo na Europa ou com o camarão-carabineiro na África do Sul. O Fundo das Nações Unidas para a Agricultura (FAO) advertiu no início deste mês que a atividade pesqueira no mundo está sobrecarregada. Por causa desse esgotamento de recursos, desde a década de 80 o volume de pescado em todo o mundo estacionou entre 85 milhões e 95 milhões de toneladas por ano. Isso apesar do crescimento numérico e da evolução tecnológica da frota pesqueira internacional. Uma das regiões mais críticas é a do Oceano Atlântico. No Hemisfério Norte, entre a América e a Europa, os vastos cardumes de bacalhau, atum e haddock estão cada vez menores. Agora só falta o governo brasileiro seguir as recomendações dos cientistas para que o mesmo não aconteça no litoral do país.
Espécies descobertas
Lophius gastrophysus (peixe-sapo, tamboril, rape, pirandeira e recaimão)
Valor: R$ 26 a R$ 30 o quilo
Principais mercados: Japão, Coréia do Sul, França, Portugal, Suíça e Espanha Atualmente uma das mais valorizadas es- pécies encontradas em águas brasileiras. É pescado do norte do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul
Chaceon ramosae (caranguejo-real) e seu primo Chaceon notialis (caranguejo-vermelho)
Valor: R$ 40 a R$ 70 o quilo
Principais mercados: Europa e EUA Começou a ser capturado no Brasil em 1998. A produção nacional de uma das espécies, caranguejo-vermelho, já atingiu 1.200 toneladas, o dobro do estimado inicialmente
Illex argentinus (calamar argentino)
Valor: R$ 10 a R$ 15 o quilo
Principal mercado: Espanha - É uma espécie de lula de grandes proporções. A exploração comercial iniciou-se a partir do ano 2000, após o registro de elevadas taxas de captura
Aristaeopsis edwardsiana (camarão-carabineiro, ou camarão de profundidade)
Valor: R$ 45 a R$ 60 o quilo
Principal mercado: Europa - Até 2002 ninguém imaginava que a espécie podia ser capturada no mar do Brasil. Custa caro nos mercados de pescados da Península Ibérica
Fabricio Escandiuzzi - de Florianópolis
Fonte: Revista Época - Edição nº 358 de 28-03-2005 - Ciência
Notícia recebida por e-mail no dia 18 de Abril






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