Oceanos esquecidos
Autor: Cristiane Prizibisczki
Fonte: http://www.oeco.com.br
Ótima matéria de Cristiane Prizibisczki publicada no O Eco. Leia o artigo completo AQUI.
O Ministério do Meio Ambiente divulgou na última semana, durante o 6º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), os novos números de áreas marinhas protegidas no país. Atualmente, 1,46% dos cerca de 4,5 mil quilômetros quadrados de oceanos sob jurisdição brasileira estão sob proteção. Há um ano, esse número não passava de 0,5%.
Apesar do salto, a decretação de novas unidades não é sinônimo de preservação. No mesmo relatório que estampa tal porcentagem também é possível verificar que, deste total, 0,15% são Reservas Extrativistas, 0,11% Parques estaduais ou federais, 0,02% Reservas Biológicas e apenas 0,01% Estações Ecológicas. A maior parcela (1,17%) é de Área de Proteção Ambiental (APA), categoria mais permissiva do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), onde impactos ambientais são admitidos na ausência de zoneamento específico.
[...] Para reservas marinhas, que são propriedade apenas da União, este aspecto melhora um pouco. Mas não deixa de ser frágil, já que não leva em conta aspectos muito importantes para a preservação, como os “corredores marinhos”, que deveriam existir, assim como os corredores florestais, para conectar a biodiversidade local.
Experiência de fora
[...] Durante três anos, pesquisadores de 14 universidades de seis países analisaram os impactos das ações humanas em 20 unidades de conservação em toda costa mediterrânea da Europa e ilhas oceânicas, totalizando cerca de 85 mil hectares de áreas marinhas bastante heterogêneas entre si.
O resultado a que chegaram foi de que, mesmo em ambientes bastante degradados e sobreexplorados, a criação de unidades de conservação restritivas possibilitou uma recuperação significativa dos estoques pesqueiros em apenas dois anos. O aumento da biomassa em tais áreas foi o mais relevante, mas também tiveram destaque o aumento no tamanho dos indivíduos e na diversidade de espécies.
Mentalidade brasileira
Além de o Brasil ter outras “prioridades” quando o assunto é preservação, pesa neste esquecimento das áreas marinhas o fato de que o mar é visto apenas como mais uma commoditie, diz o oceanógrafo Frederico Brandini, professor da Universidade Federal do Paraná e também colunista de O Eco. “A percepção do brasileiro sobre o mar é muito pequena. Há um altismo generalizado da importância do mar. Essa é uma questão histórica, cultural e que também passa a ser política”, defende.
Segundo ele, criar áreas protegidas marinhas seria muito mais fácil do que áreas terrestres, já que os oceanos não apresentam um entrave crucial para a criação de unidades de conservação: os conflitos fundiários. Todas as áreas costeiras e oceânicas estão sob poder da União ou da Marinha. Para que uma reserva seja criada, é necessário somente o “não me oponho” dos órgãos governamentais envolvidos, como Ministério do Meio Ambiente e do Desenvolvimento, por exemplo. Neste cenário, contam apenas interesses governamentais e não do mercado pesqueiro.
Para Brandini, é realmente melhor ter 1,46% de áreas protegidas do que não ter nada. No entanto, este número será ainda mais ineficaz se a criação das unidades não vier acompanhada de ações no entorno das reservas e em relação aos que se beneficiam dela. “Não é apenas você delimitar uma região. O mar é muito mais vulnerável que a terra. Na verdade não vai fazer diferença nenhuma [a criação de unidades] se não se fizer nada pelo resto e se ela não vier junto com a educação das pessoas”, arremata.









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